Kobani, a charada

26thout. × ’14

24/10/2014, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MID-01-241014.html

As valentes mulheres de Kobani – onde os curdos sírios combatem desesperadamente contra ISIS/ISIL/Daesh – estão a um passo de serem traídas pela “comunidade internacional”. Essas mulheres combatentes, além de dar combate aos bandidos do Califa, também lutam contra as agendas traiçoeiras de EUA, Turquia e da administração do Curdistão Iraquiano. Afinal, qual é o verdadeiro negócio em Kobani?

Falemos, para começar, de Rojava. O pleno sentido de Rojava – as três províncias majoritariamente curdas do norte da Síria – está exposto nesse editorial (em turco) publicado pelo ativista Kenan Kirkaya, que está preso. Para ele, Rojava é lar de um “modelo revolucionário” que desafia nada menos que “a hegemonia do sistema do estado-nação capitalista” – muito mais que apenas o “significado regional que tem para os curdos ou para os sírios ou para o Curdistão” [Ver também, sobre Rojava, “Kobani para nós“, 17/10/2014 [em tradução (NTs)].

Acontece que Kobani – região agrícola – está no epicentro desse experimento não violento no campo da democracia, possibilitado por arranjo construído logo no início da tragédia síria, entre Damasco e Rojava (vocês não vêm com ‘mudança de regime’ para cima de nós; e nós deixamos vocês em paz). No artigo que se lê aqui, por exemplo, argumenta-se que “ainda que só um único aspecto do verdadeiro socialismo sobrevivesse lá, bastaria para atrair para Kobani milhões de pessoas insatisfeitas com a vida que vivem.”

Na região do Rojava, todas as decisões são tomadas em assembleias populares – que são multiculturais e multirreligiosas. Em cada municipalidade o governo é exercido por três autoridades: um curdo, um árabe e um cristão assírio ou armênio, e tem de haver em todos os governos municipais pelo menos uma mulher. As minorias não curdas têm as suas próprias instituições e falam seus respectivos idiomas.

Dentre os muitos conselhos de mulheres e de jovens, há também um exército feminista, cada dia mais conhecido no planeta, o YJA Star militia (“União das Mulheres Livres”, onde a “estrela” [ing. star] do nome faz referência à deusa mesopotâmica Ishtar).

O simbolismo não poderia ser mais gráfico: pensem nas forças de Ishtar (deusa na Mesopotâmia) combatendo contra as forças de Isis (na origem uma deusa egípcia), agora pervertidamente ‘reescrita’ como califato intolerante.

No jovem século 21, são as mulheres, nas barricadas de Kobani, que lutam na linha de frente contra o fascismo.

Inevitavelmente há alguns pontos de intersecção entre as Brigadas Internacionais que combateram o fascismo na Espanha em 1936 e o que está acontecendo em Rojava, como se lê num dos raríssimos artigos sobre isso na imprensa-empresa comercial dominante no ocidente (“Por que o ocidente está ignorando os curdos sírios revolucionários?“, ing., Guardian, 8/10/2014 [em tradução]).

Se esses componentes não bastassem para enlouquecer completamente os wahhabistas e takfiris intolerantes (e os poderosos petrodólares do Golfo que lhes garantem patrocínio), há também o contexto político em geral.

A luta em Rojava é liderada, essencialmente, pelo PYD, que é o ramo sírio do PKK turco, os guerrilheiros marxistas que estão em guerra contra Ankara desde os anos 1970s. Washington, Bruxelas e a OTAN – sob incansável pressão dos turcos – sempre classificaram os dois partidos, PYD e PKK como “terroristas”.

Leitura atenta de Democratic Confederalism – de autoria do líder do PKK Abdullah Ocalan e livro de leitura obrigatória – mostra que a equação Stalinistas/terroristas é pura invenção manipulatória (Ocalan está confinado na prisão-ilha de Imrali desde 1999.)

O PKK – e também o PYD – luta(m) por um “municipalismo libertário”. De fato, é exatamente o que Rojava vem tentando fazer: comunidades que se autogovernam mediante democracia direta, usando como pilares os conselhos, assembleias populares, cooperativas administradas pelos trabalhadores – e defendidas por milícias populares. Daí que Rojava esteja na vanguarda de um movimento mundial cooperativo econômico/democratizante, cujo alvo máximo é ultrapassar o conceito de estado-nação.

Esse experimento está em andamento politicamente no norte da Síria; mais que isso, foram os partidos PKK e PYD quem realmente conseguiu resgatar aquelas dezenas de milhares de iazidis que o ISIS/ISIL/Daesh encurralara no Monte Sinjar. Não foram as bombas dos EUA, como ‘mídia’ e ‘especialistas’ não se cansaram de repetir. E agora, como detalha Asya Abdullah, co-presidenta do PYD, é indispensável abrir um “corredor” para romper o cerco que os bandidos do Califa mantêm em torno de Kobani.

O jogo de poder do Sultão Erdogan

Enquanto isso, Ankara parece determinada a prorrogar a política de “muitos-muitos problemas com nossos vizinhos”.

Para o ministro de Defesa da Turquia Ismet Yilmaz, “a principal causa do ISIS é o regime sírio”. E o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu – que inventou a doutrina hoje defunta de “zero problemas com nossos vizinhos” – repetidas vezes confirmou que Ankara só intervirá com coturnos em solo em Kobani para defender os curdos, se Washington apresentar um “plano pós-Assad”.

E há também o tal personagem maior que a vida, o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, codinome Sultão Erdogan.

Os éditos do Sultão Erdogan são bem conhecidos. Os curdos sírios devem lutar contra Damasco sob o comando daquela ficção de péssima qualidade, o reconstituído (a ser treinado, e onde mais seria?!, na Arábia Saudita) Exército Sírio Livre. Os curdos têm de esquecer qualquer tipo de autonomia; devem aceitar como cordeiros o pedido que a Turquia fez aos EUA, para que criem uma zona aérea de exclusão sobre a Síria e também uma fronteira “securitizada” em território sírio. Não surpreende que ambos, o PYD e Washington, tenham rejeitado tais demandas.

O Sultão Erdogan está com os olhos postos num reboot no processo de paz com o PKK; e quer conduzir o tal processo numa posição de força. Até aqui, sua única concessão foi permitir que os peshmergas curdo-iraquianos entrem no norte da Síria para dar contrabalançar as milícias PYD-PKK, e assim impedir que se fortaleça algum eixo anti-curdos-turcos.

Ao mesmo tempo, o sultão Erdogan sabe que ISIS/ISIL/Daesh já recrutou cerca de 1.000 portadores de passaporte curdo – e continua a recrutar. Seu pesadelo complementar é que a mistura tóxica que está devastando o “Siriaque” acabe, mais cedo que tarde, por respingar fortemente dentro das fronteiras turcas.

Vejam aí esses bárbaros, nos nossos portões![1]

Os bandidos do Califa Ibrahim já telegrafaram sua intenção de massacrar e/ou escravizar toda a população civil de Kobani. Mas Kobani, per se, não tem qualquer valor estratégico para o ISIS/ISIL/Daesh (o que até o secretário de Estado dos EUA John Kerry disse semana passada; na sequência, previsivelmente, se desmentiu). Mas esse muito persuasivo comandante do PYD sabe muito claramente da ameaça que é o ISIS/ISIL/Daesh.

Kobani não é essencial, se comparada a Deir ez-Zor (onde há um aeroporto que abastece o Exército Árabe Sírio), ou a Hasakah (onde há campos de petróleo controlados pelos curdos com a ajuda do Exército Árabe Sírio). Em Kobani não há nem aeroporto nem campos de petróleo.

Por outro lado, a queda de Kobani geraria imensa propaganda positiva extra para a já muito propagandeada empreitada do Califa – ampliando a percepção de um exército vencedor, sobretudo entre portadores de passaporte da União Europeia e potenciais recrutas, além de estabelecer uma base sólida muito próxima da fronteira turca.

Essencialmente, o que o Sultão Erdogan está fazendo é combater contra, simultaneamente, Damasco (no longo prazo) e os curdos (no médio prazo), enquanto, de fato, vai dando passe livre (no curto prazo) ao ISIS/ISIL/Daesh. Na verdade, adiante, por essa via, o jornalista turco Fehim Tastekin tem razão: treinar rebeldes sírios “moderados” inexistentes na oh!-como-é-tão democrática Arábia Saudita, só levará à paquistanização da Turquia. Remix – mais uma vez – do cenário que se viu durante a jihad afegã dos anos 1980s.

E como se tudo isso já não estivesse confuso que chegue, numa virada de jogo – e deixando de lado até seu dogma “terrorista” – Washington está agora mantendo uma entente cordiale com o PYD. O que gera dor de cabeça extra para o Sultão Erdogan.

Esse dá-e-tira entre Washington e o PYD ainda não está definido. Mas já há alguns fatos em campo e mostram tudo: mais bombardeios pelos EUA, mais armas lançadas pelos EUA (inclusive grandes lançamentos falhados, caso no qual as armas acabam caindo praticamente na cabeça dos bandidos do Califa).

Há um fato que não deve ser subestimado. Tão logo o PYD passou a ser mais ou menos “reconhecido” por Washington, o presidente do PYD, Saleh Muslim, tratou de encontrar-se com Masoud Barzani, o ambicioso líder do Governo Regional do Curdistão [orig. Kurdistan Regional Government (KRG)]. Foi quando o PYD prometeu uma “partilha do poder” com os peshmergas de Barzani, no governo do Rojava.

Curdos sírios que foram obrigados a deixar e autoexilar-se na Turquia, e que apoiam o PYD, não podem voltar à Síria; mas os curdos iraquianos podem entrar e sair à vontade. Esse perigoso acordo foi negociado pelo chefe de inteligência do KRG, Lahur Talabani. Esse Governo Regional do Curdistão (KRG), detalhe crucialmente importante, dá-se muito bem com Ankara.

Assim se pode afinal ver com mais clareza o jogo de Erdogan: ele quer que os peshmerga – que são ferozes inimigos do PKK – assumam a vanguarda contra o ISIS/ISIL/Daesh e assim abalar a aliança PYD/PKK. Mais uma vez, a Turquia lança curdos contra curdos.

Washington, por sua vez, está manipulando Kobani para legitimar completamente – em tom “humanitário”, tipo ‘responsabilidade de proteger’ – sua cruzada contra ISIS/ISIL/Daesh. Nunca é demais lembrar que toda a coisa começou com uma barragem de ‘inteligência’ distribuída por Washington, sobre um grupo completamente inventado, chamado Corassão, que estaria preparando um novo 11/9. Como se podia adivinhar que aconteceria, o Corassão sumiu completamente do noticiário.

No longo prazo, o poder norte-americano é gravíssima ameaça contra a experiência de democracia direta em andamento em Rojava, que aos olhos de Washington sempre será interpretada como – Deus nos proteja! – uma volta do comunismo.

Kobani é hoje pois um peão crucial num jogo impiedoso manipulado por Washington, Ankara e Irbil. Nenhum desses atores quer que floresça o experimento de democracia direta em andamento em Kobani e Rojava, que se expanda e que comece a ser divulgado por todo o Sul Global. Há altíssimo risco de que as mulheres de Kobani, se não forem escravizadas, sejam amargamente traídas.

E tudo fica ainda mais horrível, quando o ISIS/ISIL/Daesh é visto como o que essencialmente é: uma tática diversionista, uma armadilha para o governo de Obama. O que os bandidos do Califa realmente almejam é a província Anbar no Iraque – que em grande parte já controlam – e o crucial cinturão que protege Bagdá. Os bárbaros estão nos nossos portões – não só nos portões de Kobani, mas também nos portões de Bagdá.*****


[1] Orig. Watch those barbarians at the gates. Pode haver alguma referência metafórica a um filme para a televisão (1993) de mesmo título [NTs].

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